quarta-feira, 28 de março de 2012 0 comentários

EROS E PSIQUE

EROS E PSIQUE
Conta a lenda que dormia
uma Princesa encantada 
A quem só despertaria 
Um Infante, que viria 
De além do muro da estrada
Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem, 
Antes que, já libertado, 
Deixasse o caminho errado 
Por o que à Princesa vem.
A Princesa adormecida,
Se espera, dormindo espera, 
Sonha em morte a sua vida, 
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera. 

Longe o Infante, esforçado, 
Sem saber que intuito tem, 
Rompe o caminho fadado, 
Ele dela é ignorado, 
Ela para ele é ninguém.
Mas cada um cumpre o Destino - 
Ela dormindo encantada, 
Ele buscando-a sem tino 
Pelo processo divino 
Que faz existir a estrada.
E, se bem que seja obscuro 
Tudo pela estrada fora, 
E falso, ele vem seguro, 
E vencendo estrada e muro, 
Chega onde em sono ela mora,
E, inda tonto do que houvera, 
À cabeça, em maresia, 
Ergue a mão, e encontra hera, 
E vê que ele mesmo era 
A Princesa que dormia.

Fernando Pessoa
sábado, 17 de março de 2012 0 comentários

Silêncio

Silêncio

Clarice Lispector

É tão vasto o silêncio da noite na montanha. É tão despovoado. Tenta-se em vão trabalhar para não ouvi-lo, pensar depressa para disfarçá-lo. Ou inventar um programa, frágil ponto que mal nos liga ao subitamente improvável dia de amanhã. Como ultrapassar essa paz que nos espreita. Silêncio tão grande que o desespero tem pudor. Montanhas tão altas que o desespero tem pudor. Os ouvidos se afiam, a cabeça se inclina, o corpo todo escuta: nenhum rumor. Nenhum galo. Como estar ao alcance dessa profunda meditação do silêncio. Desse silêncio sem lembranças de palavras. Se és morte, como te alcançar.
É um silêncio que não dorme: é insone: imóvel mas insone; e sem fantasmas. É terrível - sem nenhum fantasma. Inútil querer povoá-lo com a possibilidade de uma porta que se abra rangendo, de uma cortina que se abra e diga alguma coisa. Ele é vazio e sem promessa. Se ao menos houvesse o vento. Vento é ira, ira é a vida. Ou neve. Que é muda mas deixa rastro - tudo embranquece, as crianças riem, os passos rangem e marcam. Há uma continuidade que é a vida. Mas este silêncio não deixa provas. Não se pode falar do silêncio como se fala da neve. Não se pode dizer a ninguém como se diria da neve: sentiu o silêncio desta noite? Quem ouviu não diz.
 A noite desce com suas pequenas alegrias de quem acende lâmpadas com o cansaço que tanto justifica o dia. As crianças de Berna adormecem, fecham-se as últimas portas. As ruas brilham nas pedras do chão e brilham já vazias. E afinal apagam-se as luzes as mais distantes.
 Mas este primeiro silêncio ainda não é o silêncio. Que se espere, pois as folhas das árvores ainda se ajeitarão melhor, algum passo tardio talvez se ouça com esperança pelas escadas.
 Mas há um momento em que do corpo descansado se ergue o espírito atento, e da terra a lua alta. Então ele, o silêncio, aparece.
 O coração bate ao reconhecê-lo.
 Pode-se depressa pensar no dia que passou. Ou nos amigos que passaram e para sempre se perderam. Mas é inútil esquivar-se: há o silêncio. Mesmo o sofrimento pior, o da amizade perdida, é apenas fuga. Pois se no começo o silêncio parece aguardar uma resposta - como ardemos por ser chamados a responder - cedo se descobre que de ti ele nada exige, talvez apenas o teu silêncio. Quantas horas se perdem na escuridão supondo que o silêncio te julga - como esperamos em vão por ser julgados pelo Deus. Surgem as justificações, trágicas justificações forjadas, humildes desculpas até a indignidade. Tão suave é para o ser humano enfim mostrar sua indignidade e ser perdoado com a justificativa de que se é um ser humano humilhado de nascença.
 Até que se descobre - nem a sua indignidade ele quer. Ele é o silêncio.
 Pode-se tentar enganá-lo também. Deixa-se como por acaso o livro de cabeceira cair no chão. Mas, horror - o livro cai dentro do silêncio e se perde na muda e parada voragem deste. E se um pássaro enlouquecido cantasse? Esperança inútil. O canto apenas atravessaria como uma leve flauta o silêncio.
 Então, se há coragem, não se luta mais. Entra-se nele, vai-se com ele, nós os únicos fantasmas de uma noite em Berna. Que se entre. Que não se espere o resto da escuridão diante dele, só ele próprio. Será como se estivéssemos num navio tão descomunalmente enorme que ignorássemos estar num navio. E este singrasse tão largamente que ignorássemos estar indo. Mais do que isso um homem não pode. Viver na orla da morte e das estrelas é vibração mais tensa do que as veias podem suportar. Não há sequer um filho de astro e de mulher como intermediário piedoso. O coração tem que se apresentar diante do nada sozinho e sozinho bater alto nas trevas. Só se sente nos ouvidos o próprio coração. Quando este se apresenta todo nu, nem é comunicação, é submissão. Pois nós não fomos feitos senão para o pequeno silêncio.
 Se não há coragem, que não se entre. Que se espere o resto da escuridão diante do silêncio, só os pés molhados pela espuma de algo que se espraia de dentro de nós. Que se espere. Um insolúvel pelo outro. Um ao lado do outro, duas coisas que não se vêem na escuridão. Que se espere. Não o fim do silêncio mas o auxílio bendito de um terceiro elemento, a luz da aurora.
 Depois nunca mais se esquece. Inútil até fugir para outra cidade. Pois quando menos se espera pode-se reconhecê-lo - de repente. Ao atravessar a rua no meio das buzinas dos carros. Entre uma gargalhada fantasmagórica e outra. Depois de uma palavra dita. Às vezes no próprio coração da palavra. Os ouvidos se assombram, o olhar se esgazeia - ei-lo. E dessa vez ele é fantasma.

Clarice Lispector- "Onde estivestes de noite?"
7ª Ed. - Ed. Francisco Alves - Rio de Janeiro - 1994
0 comentários

As Palavras

As palavras verdadeiras não são bonitas,
as palavras bonitas não são verdadeiras.

A habilidade não é persuasiva,
a persuasão é destituída de mérito.

O Sábio não é erudito,
o erudito não é sábio.

O Sábio não acumula posses.
Quanto mais ele faz para os outros,
mais ele possui.
Quanto mais dá aos outros,
mais ele recebe.

O Tao do Céu "favorece sem prejudicar".
O Tao do Sábio é "agir sem lutar"
sábado, 10 de março de 2012 0 comentários

Pensamento do Dia 31#

e dois homens vêm andando por uma estrada, cada um com um pão, e, ao se encontrarem, trocarem os pães, cada um vai embora com um.
Se dois homens vêm andando por uma estrada, cada um com uma idéia, e, ao se encontrarem, trocarem as idéias, cada um vai embora com duas."
Provérbio chinês
0 comentários

Para Sempre

Para Sempre

Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.

Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
- mistério profundo -
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho. "
Carlos Drummond de Andrade
terça-feira, 28 de fevereiro de 2012 0 comentários

A Vida

cid:1.483521406@web37103.mail.mud.yahoo.com
A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando se vê, já é sexta-feira...
Quando se vê, já terminou o ano...
Quando se vê, perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê, já passaram-se 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado.
Se me fosse dado, um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando, pelo caminho, a casca dourada e inútil das horas.
Desta forma, eu digo: Não deixe de fazer algo que gosta devido à falta de tempo, a única falta que terá, será desse tempo que infelizmente não voltará mais.'

  Mário Quintana  
                                                             


domingo, 19 de fevereiro de 2012 0 comentários

Psicanálise e Doença Psicossomática I


Psicanálise e doença Psicossomática


Por Andreneide Dantas (Artigo).


A psicanálise se ocupa do sujeito que a ciência deixa de lado, presta atenção àquilo
que o médico não escuta. Não medimos taxas no sangue, não radiografamos ou
diagnosticamos, mas escutamos o que o sujeito tem a dizer sobre esse
corpo manipulado, enlouquecido por uma doença que resiste aos medicamentos.
Doenças nas quais muitas vezes a medicina não encontra um “sentido”.
Quando o indivíduo nasce, ele tem um organismo, um corpo despedaçado, um
conjunto de órgãos que só através da linguagem vai ter estatuto de unidade corporal.
Este corpo a que me refiro, é um corpo que precisa do outro estruturado como um
discurso para que este corpo de carne se transmute em corpo simbólico.
O sujeito, antes de nascer, já existe. Está na palavra mesmo antes de ter um corpo e
continua a existir depois de sua morte, quando não tem mais um corpo. Isto é possível
porque a duração do sujeito está sustentada pelo significante. É a linguagem que
permite uma margem além da vida.
Precisamos esquecer que temos um corpo para não enlouquecer. Não ficamos
escutando as batidas de nosso coração, medindo a pressão ou sentindo a respiração -
salvo os hipocondríacos.
Mas o que acontece aos pacientes que apresentam as doenças chamadas
“psicossomáticas”? Doenças cuja etiologia não são explicadas?
Aqui os transtornos orgânicos fazem os órgãos presentes, existe um retorno do autoerotismo
que exclui o gozo da palavra. Sabemos que no auto-erotismo - como já está
dito - o sujeito prescinde do outro como semelhante, tem um auto gozo, gozo no
próprio corpo. Quantos de vocês já devem ter escutado de pessoas que sofrem
de “doenças psicossomáticas” : “Esta doença me acompanha há tantos anos”; e fica
como única companheira mesmo. Ou então: “Carrego comigo esta doença há dez anos
“. E esta paciente precisava ficar trancada em um quarto escuro durante três dias,
longe do marido e filhos.
Muitas vezes uma doença, assim como também uma droga, toma o lugar do parceiro
sexual. O sujeito não goza sexualmente com o semelhante, mas com a doença ou com
a droga que ingere. Asma, úlcera, alergias, obesidade, transtornos digestivos,
tumores e hemorróidas. Nesta lista incluem-se também anorexia, epilepsia, diabetes,
psoríase, etc. Existe uma vasta relação de doenças que estão intimamente ligadas
ao que o sujeito deixa de falar, com a renúncia de seu desejo. O que não é dito faz
escrita no próprio corpo. Obstruindo uma veia, destruindo um órgão, abrindo feridas ou
descamando a pele do corpo. Feridas que mostram que as coisas não vão bem, que
algo não está sendo dito, em palavras.
A psoríase por exemplo, dá a ver , não para ler mas para mostrar e angustiar ao outro.
Aqui o gozo não fica reservado às zonas erógenas, mas mete-se no corpo, corporificase
fazendo a lesão. Escreve no corpo algo que é da ordem do número, um grito,
uma escrita que parece ilegível. Mas o analista com seu desejo pode escutar e
possibilitar ao paciente que ele coloque em palavras o que está incrustrado em sua
carne. Os pacientes com “doenças psicossomáticas”, geralmente têm outros casos na
família, mas não é comprovado que são transmitidos geneticamente. Constatamos que
são transmitidos pelo discurso. Às vezes é uma forma, ou a única forma de
identificação ao pai. Exemplo de uma paciente que, tendo desconfiança que era filha
adotiva, faz uma psoríase, como sua avó paterna.
O analista não aborda os órgãos nem o organismo ou a enfermidade.
O único que trata é do discurso . Presta atenção ao sujeito, ou aquilo, que do corpo o
representa. Não se ocupa de “fenômenos psicossomáticos”, mas, de significantes.
É preciso escutar o paciente e conduzir a cura até a abertura de um espaço onde o que
é resposta fixa -- “doença psicossomática” - transforme-se em uma pergunta sobre seu
desejo. Só assim o paciente pode colocar seu sofrimento no discurso, e não mais
atribuir ao destino o que lhe acontece.
Podemos com nossa escuta oferecer um lugar e um tempo para que o sujeito faça
dessa letra, desse número inscrito em sua carne, letra discursiva. Que isto possa
aparecer nos sonhos, lapsos e esquecimentos, que possa transformar-se em palavras,
em um dito o que está preso em um grito.

Lomadee, uma nova espécie na web. A maior plataforma de afiliados da América Latina.
 
;